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quarta-feira, 8 de novembro de 2017

PF investiga encontro de Garibaldi e Sarney e tentativa de 'soltura antecipada' de Henrique Eduardo Alves

A Polícia Federal suspeita que o senador Garibaldi Alves e outros familiares do ex-ministro do Turismo Henrique Eduardo Alves, primo do parlamentar, buscaram ajuda do ex-presidente José Sarney para tentar uma “soltura antecipada” do ex-presidente da Câmara dos Deputados.


Segundo as investigações, a busca era, possivelmente, para tentar influenciar o julgamento de habeas corpus no Superior Tribunal de Justiça (STJ).


Henrique Eduardo Alves está preso há mais de quatro meses e foi um dos alvos da Operação Lava Jato, deflagrada há duas semanas, um desdobramento que nasceu do farto material apreendido nas buscas e apreensões da Manus, ação da PF nascida em junho.


Um relatório da Operação Manus ao qual o blog teve acesso registra gravações telefônicas, com autorização da Justiça, entre o senador Garibaldi e Laurita, esposa de Henrique Eduardo Alves, e também com Larissa, filha do casal.


O documento de 76 páginas, com data de 19 de outubro deste ano, mostra ainda que Garibaldi e Larissa foram monitorados pela PF em um carro oficial do Senado, a caminho de uma suposta casa da família Sarney.


Os grampos telefônicos e a vigilância presencial dos policiais estão registrados sob o título de “Encontro na Casa do Presidente”, e variam entre os dias 06 e 10 de outubro deste ano.


O primeiro diálogo importante trata de ligação entre Garibaldi e Laurita realizada no dia 8 deste mês, às 18h51:

GARIBALDI: olhe, o Presidente marcou pra amanhã 
LAURITA: certo 
GARIBALDI: sete e meia da noite, na casa dele 
LAURITA: ótimo, perfeito, tá ótimo, então vai à tarde e (...) pega no aeroporto, né 
GARIBALDI: é verdade, é, tá certo 
LAURITA: tá ótimo, tá perfeito, muito obrigada 
GARIBALDI: viu 
LAURITA: obrigada viu 
GARIBALDI: tá 
LAURITA: Deus abençoe você 
GARIBALDI: um abraço Laureati [Laurita] 



O que diz o documento da PF após transcrição do diálogo: “Importante ressaltar que a ligação ocorre em meio a um contexto de uma tentativa e busca contínua de Laurita e Andressa (filha) de meios para conseguir a soltura antecipada de Henrique Eduardo Alves".


"Ademais, segundo as demais ligações da investigada Andressa, a sessão de julgamento de seu pai no Superior Tribunal de Justiça (STJ) estava prestes a ocorrer, motivo pelo qual existe a possibilidade de que tal encontro tenha sido arranjado no sentido da obtenção de benesses nesse julgamento”, continua relatório.


Depois disso, a PF registra conversa, interceptada no dia seguinte, da secretária de Garibaldi para o telefone de Andressa, na qual é marcado um encontro entre o senador e a filha de Henrique Alves na lanchonete Giraffas, no Gilberto Salomão, centro comercial do Lago Sul, bairro nobre de Brasília, pouco antes da suposta ida à casa de Sarney.


Segundo a PF, o suposto encontro na casa do ex-presidente estava marcado, primeiramente, para as 19h30 de 9 de outubro último, há quase um mês.


"Aproximadamente uma hora antes do encontro (09/10/2017 às 18h10min), o motorista [do senador] telefona para Andressa para combinarem o local exato onde passarão a integrar o mesmo carro em direção ao encontro”, explica o documento.


Cinco minutos depois o próprio senador conversa com Andressa, através do telefone desse motorista, diálogo que o blog também reproduz a seguir:

GARIBALDI: Andressa 
ANDRESSA: oi 
GARIBALDI: já soube da antecipação? 
ANDRESSA: já, sete horas né? 
GARIBALDI: é, sete horas lá 
ANDRESSA: é, eu tô saindo aqui com minha mãe do aeroporto, vou só assinar um papel, é aqui pertinho do Gilberto, eu encontro vocês, é aqui do lado mesmo, é caminho 
(...) 
ANDRESSA: é rápido, é no caminho, só vou passar aqui no contador só pra assinar um papel 
GARIBALDI: tá certo 
ANDRESSA: tá, é caminho 
GARIBALDI: você trouxe a lista direitinho é, tudo né? 
ANDRESSA: não, mas eu tenho de cabeça, qualquer coisa eu anoto lá 
GARIBALDI: hein? 
ANDRESSA: eu sei de cabeça, eu anoto lá 



Para a PF, é “importante destacar que Garibaldi preocupa-se que Andressa leve para a reunião uma lista, ao que Andressa responde que sabe de cabeça”.


"Tendo em vista a proximidade da data do julgamento no STJ anteriormente mencionada neste relatório, bem como o efetivo engajamento da investigada no caminho jurídico do processo penal de seu pai, tudo indica que referida lista seja relacionada a este julgamento”, diz o documento.


O relatório traz fotos do acompanhamento, inclusive do veículo oficial do Senado – placa Senado 0047 (acima).


Segundo o documento, às 18h59 do dia 9, Andressa embarca no carro do Senado, que sai do Gilberto Salomão, em direção à Península dos Ministros, também no Lago Sul, bairro nobre de Brasília. Às 19h09, segundo a PF, o carro chega à uma casa que, de acordo com o relatório da PF, pertence à família Sarney.


“O veículo oficial do Senado no qual Andressa está dentro entra na residência na Península dos Ministros - Lago Sul pertencente à família do ex-presidente da República José Sarney”, afirma a PF.


O relatório transcreve em seguida uma outra ligação de Andressa, às 20h33 do dia 9, depois do fim da reunião, desta vez para o marido dela, chamado Bruno. "Ao final da reunião, Andressa telefona para seu marido para saber como seu pai reagiu às notícias”.


De acordo com a PF, a investigação indica que Andressa enviou a Bruno, por Whatsapp, o resultado obtido com o encontro na casa do “presidente”, "solicitando que o mesmo repassasse para Henrique Eduardo Alves”.


Segundo a Polícia Federal, Andressa avisa ao marido, no início da ligação, que “ligou no normal” no intuito “provável" de alertá-lo a tomar cuidado com o que vai falar, "uma vez que trata-se de uma ligação telefônica que não foi feita utilizando-se de aplicativos de conversas instantâneas”.




BRUNO: oi 
ANDRESSA: oi, liguei no normal, tá? 
BRUNO: ham ham 
ANDRESSA: e aí? 
BRUNO: tudo ótimo, muito bom, tudo ótimo, ficou melhor ainda, já tava bem, ficou melhor com essa aí 
ANDRESSA: ai, que bom, mas não chorou, nada não, né? 
BRUNO: não não, nem perto disso, longe disso 
ANDRESSA: ai que bom que não vai ter interrogatório aqui no STJ né? falou tudo? 
BRUNO: falei, falei tudo 
ANDRESSA: ai, falou da reunião, tudo? 
BRUNO: ham ham 
ANDRESSA: ele ficou bem? 
BRUNO: muito, muito 
ANDRESSA: ai, que bom 
BRUNO: eu cheguei lá, ele tava animado, ele tá bem, só tava ansioso pra saber né... 
ANDRESSA: é, eu imaginei 
BRUNO: ai quando eu passei pra ele, ficou melhor, eu saí, ele tava super otimista 
ANDRESSA: ai que bom, então tá 



Para a PF, a ligação demonstra que Henrique estava ansioso pelo resultado da reunião ocorrida entre Andressa, Garibaldi e o ex-presidente Sarney e que o mesmo ficou satisfeito com o que foi obtido.


No dia seguinte ao encontro na suposta casa de Sarney, o último 10 de outubro, às 19h53, Garibaldi liga para Andressa, novamente do telefone do motorista, para avisar, segundo a PF, que ainda não recebeu a notícia que eles precisava.


"Tendo em vista as ligações anteriores, bem como a diligência realizada pela equipe policial em Brasília que identificou que o encontro ocorreu na residência do ex-presidente da República José Sarney, tudo indica que seja do ex-presidente que Garibaldi espera uma resposta”. A seguir a íntegra da transcrição:

MOTORISTA RAIMUNDO: é, eu vou passar o Senador Garibaldi pra você 
ANDRESSA: ah, tá bom, obrigada 
GARIBALDI: Andressa 
ANDRESSA: oi 
GARIBALDI: eu fiquei até agora esperando aquela notícia pra dar pra tu 
ANDRESSA: sei 
GARIBALDI: e até agora eu não recebi a notícia, liguei pra ele, mas ele não chegou em casa 
ANDRESSA: ah tá 
GARIBALDI: aí ele tava...o Secretário dele disse que assim que ele chegar vai pedir pra ele ligar 
ANDRESSA: tá tá bom 
GARIBALDI: aí ele diz...você vai amanhã mesmo? 
ANDRESSA: vou amanhã de manhã, dez horas 

As interceptações demonstram que o julgamento do caso no STJ estaria marcado para o próximo dia 31 de outubro, o que não ocorreu. O blog entrou em contato com a assessoria do STJ. Existem dois habeas corpus impetrados pela defesa de Henrique Eduardo Alves, datados do fim de agosto deste ano.


Os habeas corpus ainda não foram a julgamento, mas tem parecer contrário dado pelo Ministério Público Federal. Segundo a assessoria, a regra é que os HCs sejam levados ao órgão colegiado, nesses casos a Sexta Turma.

G1
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